Heróis de Havnar

Traidor da Raça

Mogo narra sua história

O sexto dia no mar é o pior de todos. O enjôo e o desequilíbrio dos primeiros dias ainda não passou, e você ainda não está conformado com a hipótese de que qualquer chuvinha vai transformar você em ceia de Tritão. Confio tanto na engenharia naval dos Anões de Bronze quanto confio no Velho Malthus jogando gamão. Cuprum me ajude nessas horas…
Para minha sorte, meus captores conhecem as melhores correntes, e aquele suplício que chamam de travessia acabou em um ou dois dias. Sem uma gota de cerveja, sem um baralho e sem cerveja, privado de minha liberdade e da profissão de minhas crenças, eu já me preparava para encontrar o sorriso d’O Apostador. Estava amarrado, amordaçado e preso na casa de algum velho pescador humano que mal pudera se defender com uma faca enferrujada. Meu povo não presta. Quando ainda vivíamos sob os bons auspícios de Cuprum, cantávamos canções antigas, bebíamos até o chiar das cotovias e dançávamos ao som de acordeão anão. A vida era boa. Mas a fome, a seca, os ataques fazem de um povo uma carcaça. Quando não havia mais fruto ou flor nascendo de nossas terras, nos atiramos ao mar como contam as histórias dos “Dragões de Bronze”. Achamos outras terras: férteis, de grama esmeraldina e riachos sussurrantes. E tentamos tomá-las á força. Matamos velhos , crianças e mulheres. Dizimamos vilarejos com milícias armadas com gravetos com nossas melhores armas de cerco. E o sorriso perene do Apostador se fechou. Os que vieram antes de mim, tentaram argumentar, discursaram bravamente pelo nosso estilo de vida e pelas palavras de Cuprum. Mas havia outros, outros que falavam… o que o povo queria ouvir. Diziam que os dragões nos ensinavam pelo exemplo, que éramos como eles, saindo à caça de uma presa gorda e suculenta. E o povo aplaudiu. E o sangue jorrou. Desde miúdo sabia que aquele não seria eu, não levantaria arma contra fazendeiro ou mercador. Não iria ser a matéria dos pesadelos de algum orfão chorando no canto de um templo. Eu seria a palavra do Apostador, seria suas garras, seria seus gracejos e sua esperteza. Seria tudo isso, mas jamais um assassino. hehehehe, foram palavras como essa que me trouxeram àquele porão escuro, não podiam ignorar meu manejo do martelo, então me forçaram a vir. Eu esperava a morte, mas Cuprum também achou por bem me pregar uma peça. Da escuridão da choupana, ouvi gritos e palavrões de meus algozes, ouvi flechas e raios zumbindo, e ouvi o baque de corpos mortos no chão. Mereceram, assim como eu mereceria em breve, por não ter sido capaz de guiar a mão de meu povo rumo à paz. O que se seguiu… foi… foi incomum. Um grupo estranhamente díspar se amontou sobre mim e me inquiriu. Um elfo negro com olhos que luziam com ódio, um humano trajando duas espadas, e a figura cômica de um pequeno. Era como se o circo estivesse na cidade hehehehehe. Me dá mais cerveja… isso. Onde estava? Ah sim, na estranha trupe. Apesar do estranho conjunto, foram os seres mais corteses com um prisoneiro de greve que eu já vi.Me permitiram inclusive voltar ao barco para recuperar aquele precioso barril de cerveja que me fez tanta falta. O pequenino se animou, mas o chá que eles tomam não é nada perto da arte secular das cervejarias dos Montes de Cobre. Tivemos que voltar à vila humana, onde me enjaularam de novo. Não me fiz de rogado, e reclamei e cantei e conversei com os carcereiros sem parar. É uma questão de princípio. Se você quer irritar alguém que te jogou numa prisão, a única coisa que você precisa fazer e mostrar-se confortável com a situação. Bendita sabedoria do velho Malthus. Finalmente liberto, me foi permitida a liberdade com a condição que eu acompanhasse aquele estranho grupo. Não achei de todo mau: parecia ser o grupo mais interessante de pessoas com quem convivia pela primeira vez em muito tempo. Um rico fazendeiro nos encarregou de livrar a região de um grifo que estava comendo todo o gado. Para tal, o grupo achou de bom gosto que eu me fingisse de cadáver junto com os corpos de outros guerreiros de cobre . Eu era uma isca entre as carcaças de meu povo. Quando o bicho finalmente pousou, a bagunça estava armada. a criatura era forte o suficiente para encarar 3 guerreiros e um feiticeirinho halfling. O Elfo estava decidido a domar o bicho, e optamos por usar cordas e não por esmagar o crânio da fera penosa. Quando o bicho sossegou, estávamos todos exaustos. o Elfo ficou para trás pra tentar domar o bicho. Soube depois que ele escapou. Não quero imaginar a cara do fazendeiro. Nem do Drow – esse povo odeia tudo que se move sob o sol. Bem, Eu e Finn – a essa altura já havia decorado seu nome – voltamos ao povoado. Lá conhecemos outro colega do Drow e do guerreiro, um estranho mago com conhecimentos náuticos. Magos já são estranhos. Imagine um deles num barco. Pois bem, com este magrelo limpamos um farol de um ninho de harpias. Garanto que não foi bonito. Também batemos um agradável papo com um fantasma de uma donzela infeliz que quase me matou. Tudo isso enquanto esperávamos meus irmãos de sangue desembarcarem nas praias e tentar tomar essa terra como se fosse deles. Pois bem, estava eu pronto para impedir gente do meu próprio povo de fazer isso? Estava. Assumidamente, eu era um traidor da pior espécie. No dia da batalha, eu confesso que não pensei. Não lembrei dos folguedos de infância, das lições do velho Malthus, do pomar atrás da casa dos meus pais. Eu apenas lutei. Martelada após martelada, ferimento após ferimento. Até que – com a graça de Cuprum – eu desferi o golpe que derrubou o Líder da invasão. Eu sei que músicas contarão a seu respeito. Eu sei que meu nome será proscrito do Livro de Nok. Sei que minha nomeação será Tabu no templo onde me sagrei paladino. mas eu pude esconder os pensamentos e as lágrimas atrás do sangue e do suor. Eu quero que meu povo sorria, que o Apostador sorria, e que o Mundo sorria junto. Quero que voltemos a compreender nosso povo como fazíamos outrora. Quero que sigamos o Caminho dos Anciões.

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O_Mestre

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