Heróis de Havnar

Lua cheia

Artimus Stormwind narra sua história

A batalha contra o saque de Blèt foi repleta de primeiras vezes para mim: Para começar, foi a minha primeira batalha de verdade, a primeira vez em que matei um humanoide; a primeira vez em que tecnicamente ajudei a matar um dos antigos clientes de meu pai, a primeira vez em que notei a velocidade com que minhas habilidades estão se desenvolvendo e a primeira vez em que temi o caminho pelo qual todo esse novo poder está me levando.

Além da poeira e dos corpos inertes dos saqueadores, olhei para os companheiros com quem estive viajando durante esse último par de anos e, pela primeira vez, percebi que eles são tão quebrados quanto eu. Talvez, tenhamos mais coisas em comum com os anões que acabávamos de matar do que gostaríamos de admitir. E, por isso, me sentirei culpado por um bom tempo.

Antes mesmo que pudéssemos descansar Hammond, o Resoluto, barão daquelas terras, aproximou-se de nós com o intuito de formalizar o convite para o grande banquete da vitória.

- Pretendo vê-los em meu castelo antes do fim deste mês. Por sinal, gostaria de apresentar-lhes um viajante que, como vocês, foi de grande valor para a vitória que obtivemos hoje contra aqueles bárbaros! Cavalheiros, este é… Mas que diabos? Onde está o Raven?
- Vossa Graça me procura? – respondeu uma voz bem atrás de mim.

Eu juro que quase mandei uma das minhas mãos esqueléticas pra cima do pescoço daquele pequeno ladino, tamanho foi o susto que eu levei. Oh, você acha que estou exagerando? Deixe-me contar uma história. Bem, eu não sou sozinho nesse mundo, sabe? Tenho uma irmã gêmea chamada Amira. Desde criança, aquela… Enfim, ela desenvolveu um prazer singular em me assustar aparecendo do nada como Raven acabara de fazer. E foi assim que aquela… Piranha maldita, pronto, falei… Perdoem meu linguajar, senhoritas, mas acontece que foi assim que ela e seus capangas imundos assassinaram meu pai e quase conseguiram me pegar também.

Assim, com as pernas um pouco bambas, confesso, partimos com a caravana rumo à refeição mais espetacular que eu já tive na vida. Era comida para todo lado… Eu mal posso esperar para o dia em que finalmente usemos o direito de audiência com o rei… Enfim, dias mais tarde, depois de muita comida e um merecido descanso, voltamos a Blèt, onde eu fiz algo que não fazia há muito tempo: navegar. As senhoritas gostam de navegar? Bem, não vou perturbar-lhes então com os detalhes magníficos da viagem, apesar de ter que admitir que, como eu nunca navegara um barco daqueles, passamos por maus bocados numa tempestade que nos atingiu em cheio.

Mesmo assim, com umas velas rasgadas e uns pedaços do barco quebrados, chegamos inteiros à costa de Vorun Forok para investigar a estranha atividade de um vulcão há muito adormecido. Raven foi o batedor do grupo, enquanto eu e os demais companheiros arrastávamos o barco para a floresta que se formava às margens da praia.

Acho que não fomos silenciosos o bastante, já que mal havíamos escondido o barco e um grupo de anões de bronze se aproximou de nós, estranhando a presença de forasteiros em suas terras e pedindo que nos identificássemos. Antes mesmo que uma resposta pudesse ser dada, nosso patrulheiro fez voar suas flechas envenenadas, pondo fim ao encontro. Os pobres anões não tiveram a menor chance. Se eu participei? Ah, não, minha querida. Ainda estava com peso na consciência, lembra? Eu tentei impedir que meu companheiro lançasse a flecha, mas não fui rápido o suficiente. Pensando agora, bem que eu poderia ter usado meus conhecimentos arcanos para influenciar sua vontade, mas eu ainda estou me acostumando com esses novos poderes e isso nem passou pela minha cabeça. Acabei usando esse encantamento depois no pequeno Raven, mas essa já é outra boa história.

Por falar nele, no breve período em que nos separamos, Raven encontrou os mesmos anões e com eles fez amizade. O líder deles, Dwari, era popular na vila e seu nome acabou nos sendo bem útil. Enfim, durante a noite, acampamos ali mesmo, na floresta, sem maiores incidentes. Bem… com exceção de um alto e assustador uivo que ouvimos perto do amanhecer, mas isso nos garantiu uma bela desculpa: os anões teriam sido comidos pela besta, seja lá o que aquilo fosse.

Com uma cara de pau impressionante, chegamos à vila dos anões e nos apresentamos diante de seu líder ancião, Khori. Dissemos que éramos amigos de Duari e apresentamos nossas intenções de investigarmos o vulcão. Nesse ponto, Kori nos interrompeu com uma proposta: Se o ajudássemos a resolver o caso de uma série de assassinatos cometidos por uma terrível besta, seríamos convidados especiais da vila para o encontro de uns tais de sacerdotes de Aes que certamente possuiriam conhecimentos de valor para nós. Quem é Aes? Ah, ele é um dragão de bronze venerado pelos anões como um Deus, mas depois eu falo mais sobre ele.

Tudo corria tão bem para nós que, nessa mesma tarde, meus companheiros ficaram ali mesmo bebendo a cerveja especial dos anões e, por óbvio, quando o sol se pôs sobre o mar, metade deles estava em condições lastimáveis. Nesse momento, eu dei o troco no pequenino que me assustara dias antes. Apontei para a anã mais feia que encontrei no bar e usei meus poderes para manipular sua vontade e fazê-lo cantar a moça. Bom, o resultado foi catastrófico. Perguntem a ele depois hahahahahaha. Ou não… ele ainda acha que foi culpa da cerveja…

Nessa noite, eu, o feiticeiro e o patrulheiro montamos guarda no Grande Salão, já esvaziado. Olhando para a fogueira, comecei a divagar. Pensei no medo da besta que marcava os olhos até do mais orgulhoso dos anões daquela vila e logo minha mente viajou até o dia de tempestade em que me lançaram ao mar, para o momento em que vi o dragão de pérola debatendo-se em desespero entre as garras daquele que me enganara, para a morte de meu pai e o medo que eu carrego desde esses dias voltou a apertar dentro de mim. Eu preciso achar aquela máscara logo… Extravasar o medo dentro de mim e passá-lo para os olhos dos meus inimigos. Perdoem-me, senhoritas… Eu costumo me perder um pouco quando falo sobre essas coisas. Ah, sim… Eu sei que nada disso faz sentido para vocês, mas esses fatos são tristes demais para serem contados numa bela noite de lua cheia como essa. Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim, no medo. Na verdade, depois de uns segundos, eu percebi que o medo que estava sentindo era o medo que essa linda coruja aqui estava sentindo. Pois é, a gente tem uma comunicação meio especial e eu sempre sei o que ela sente. Ela estava sobrevoando a vila, quando avistou a tal besta, mas eu estava tão perdido em meus próprios pensamentos que, quando percebi o que estava acontecendo e corri à janela, era tarde demais: Aquela figura gigantesca de um lobo fizera outra vítima e já fugia, esgueirando-se pela floresta. Até tentamos perseguir os rastros do lobo, mas o perdemos numa clareira. O que salvou a noite de um total fracasso, porém, foi a repentina transformação das grandes pegadas de lobo em uma trilha de pequeninos passos de anão que retornavam à vila. Por Lux! Esse chocolate quente é maravilhoso! Obrigado!

No dia seguinte, usando uma péssima desculpa da qual eu não me orgulho nem um pouco, passamos o dia testando a reação dos habitantes da vila a um dado que supostamente identificaria quem era a besta. Fracassamos lamentavelmente. Ninguém denunciava qualquer sentimento além do medo de ser a próxima vítima. Nessa noite, porém, com o time completo e livre da ressaca, usamos o pequeno Raven de isca e emboscamos o que descobrimos ser um lobisomem. Sim, minhas queridas: Lobisomens não são apenas histórias para crianças não se afastarem de casa durante a noite. Eles são reais. Claro, eu as acompanharei durante todo o caminho de volta para casa, não se preocupem.

Cortando um pouco a parte da violência, a maior surpresa da noite, no entanto, veio quando descobrimos que o líder Khori era o lobisomem. Sim, eu devo ter feito essa mesma cara quando olhei para aquele rosto envelhecido hahahahaha. Enfim, na manhã seguinte, comunicamos o que acontecera e, depois de um breve momento de tensão, aqueles anões nos tomaram como os novos heróis da vila. E foi assim que nós tornamos convidados de honra para a tal reunião de sacerdotes de Aes. Agora, se as senhoritas permitirem, gostaria de pegar mais um achocolatado…

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O_Mestre

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